quarta-feira, junho 28

Tapete vermelho para o matuto

O tema do matuto na cidade grande não é novidade no cinema brasileiro: em 1908, o curta-metragem Nhô Anastácio chegou de viagem, de Julio Ferrez, narrava a chegada de um tipo rural no Rio de Janeiro – suas andanças e confusões no espaço urbano da então capital federal – sendo considerado um dos primeiros filmes de ficção rodados no país. E lá se vão quase 100 anos até chegarmos a conhecer Quinzinho e seu mundo de roça, crenças e sinceridade em Tapete vermelho, de Luis Alberto Pereira (Brasil, 2006, 100 min.) – ainda em cartaz em João Pessoa.

Em um filme inesperadamente antiurbano, com personagens que enrolam a língua no sotaque 'típico' do interior paulista e cultuam tradições fora da mídia/moda (reza, viola e dança caipiras), ficamos sabendo da missão cinéfila de Quinzin: prometera ao pai, antes dele morrer, que levaria o neto para assistir a um filme de Mazzaropi no cinema da cidade. Como o aniversário do garoto se aproxima, a hora de cumprir a promessa também chega.


Saem então pai, mãe, filho, cavalo e farnel em busca de uma (inexistente) sala de cinema em pequenas cidades do interior onde estivesse passando um (impossível) filme do comediante que consagrou o estilo ‘jeca de ser’ no nosso cinema em mais de 30 fitas. Já não há cinemas nas ruas (novas religiões parecem ocupar a maioria dos antigos templos da sétima arte) e Mazzaropi tornou-se apenas um nome a mais na memória do brasileiro que envelhece, podendo ser conhecido pelas novas gerações apenas em DVD. A televisão chegou para substituir os hábitos da sala escura: no lugar do silêncio e da concentração reina a dispersão confusa na sala de estar de todo dia. Nosso herói, contudo, não quer saber disso, e sua missão a cumprir colocará a jovem família em risco até o final um tanto quanto (im) previsto.

O realizador se utiliza do interesse do matuto pelo cinema como motor para apresentar personagens em situações que misturam lances de comédia rural, filme que cultua o próprio cinema e drama urbano, tudo num enredo só.
Sem ser totalmente enfadonho, graças à atuação farsesca e respeitosa de Matheus Nachtergaele na pele de Quinzinho e de Gorete Milagres no da esposa indecisa entre viver o campo com o marido ou a cidade na solidão, Tapete vermelho escorrega por algumas más atuações, especialmente de coadjuvantes; uma impregnação de fé católica redentora – uma versão de Pagador de promessas à paulista? – e uma discussão superficial sobre a questão agrária no país através de ações que envolvem ficcionalmente o Movimento Sem Terra.

Mas a história está lá, contada aos moldes clássicos do começo ao fim, e acompanhá-la acaba por se tornar um programa tão inesperado quanto realmente assistir, nos dias de hoje, a um filme de Mazzaropi num cinema de shopping center da cidade.

Zonda Bez

Um comentário:

pia disse...

A história me envolveu, mas os atores coadjuvantes são realmente muito ruins.
Parabéns por esse espaço, Zonda. Um abraço.